"Cartas que vão e vêm. Como é dura a rotina das correspondências em um mundo digitalizado como o nosso. Certo dia, havia um contrato a ser assinado e necessitava das firmas reconhecidas de todos os envolvidos no processo. O despachante da importante empresa de assessórios para automóveis deveria encaminhar o documento para que o seu fornecedor de matéria-prima assinasse e, assim, pudessem renovar por mais quatorze meses a duração do novo contrato. As empresas, que terminaram no último trimestre a fase de experiência, decidiram pela parceria, apesar de uma concorrente estar estremecendo a negociação por meio de promessas de menor preço e melhor qualidade nos produtos. Porém, o responsável pela compra levaria consigo um prêmio de bonificação pelo esforço nas negociações por parte da fornecedora com quem teve o período de experiência. E encaminhou a carta. Após um dia inteiro, o envelope com o contrato deveria chegar na manhã seguinte, assim, retornaria no terceiro dia. Com esse prazo, que agora se fazia muito apertado, as empresas poderiam registrar o novo contrato no último dia do ano contábil e economizariam, assim, 9 % no custo de impostos diretos. A partir do ano seguinte o governo estadual iniciaria a cobrança de uma nova taxa para importantes empresas de assessórios de automóveis. Havia, no governo, uma ideia de acabar com o consumo de carros naquele estado, e para substituir a matriz de transporte seria feito investimentos pesados em transporte coletivo. Tudo com propinas e desvio de verbas para a campanha a ser disputada no ano seguinte já incluídos na base de cálculo das obras e serviços. Na empresa que forneceria as matérias-primas, um jovem, recém formado na faculdade de educação física, filho de um pai que acabara de safá-lo de uma temporada na cadeia estadual por estar envolvido com o tráfico de drogas no bairro onde vivia,estava esperançoso que conseguiria reverter sua sorte, iniciar uma nova vida. Ao menos era o que dizia sempre em seus discursos aos recomendosos amigos e companheiros da pequena cidade do interior de Goiás, e frequentemente, a ele mesmo. Mas em seu próprio interior duvidava que conseguisse se livrar do vício, adquirido após noites deteto branco, de falas sem ouvidos, de bagunça sem limites e de genética (des)favorável.Não sabia muito bem a origem do tal vício, todavia, talvez não fosse nada disso. Ao importante: no dia esperado a carta não chegou. O jovem, ainda inexperiente, não atentou para o fato. O fabricante (mal educado, mais abaixo se explicará o motivo) da importante empresa de assessórios para automóveis primeiro passou um e-mail preocupado com a demora na resposta. Sem obter retorno, telefonou e foi informado que o proprietário e responsável pelas assinaturas, o jovem, chegaria apenas depois do almoço ao escritório, conforme o próprio havia informado a sua secretária. Sua velha secretária. Recém contratada, porém velha. O fabricante (mal educado), já convencido de que sua preocupação sobre seu estado recente de fervorosa preocupação estava correta decidiu ser paciente e aguardar, mesmo apresentando a falta de educação,característica das pessoas que são mal educadas, à velha-recém-contratada-secretária. À tarde o jovem chegou, e foi informado pela velha-recém-contratada-secretária que seu primeiro acordo comercial estava sob risco caso não assinasse o contrato naquele dia,reconhecesse as firmas das assinaturas (apesar do nome não é preciso ter uma firma constituída para se reconhecer uma firma, trata-se apenas da assinatura, mas na cabeçado jovem imaginava ir ao cartório e olhar uma série de fotos de empresas até que se reconhecesse a sua. Se divertia com a ideia) e encaminhasse o contrato de volta pelo correio. E a carta, ao final do dia, e após de mais (de) uma (dúzia de) ligação do mal educado, não chegou. Ligou-se para a empresa de correios para rastrear o documento,há essa opção hoje em dia, e como resposta ouviu-se que sequer existia no sistema o número informado. O mal educado esbravejava e dizia que iria até a agência para falar com o gerente, talvez com o presidente da empresa de correios, mas foi soube pela telefonista que isso só seria possível na tarde do dia seguinte, uma vez que comemorariam o dia do carteiro no período da manhã. Mal educado ficou ainda mais mal educado, e telefonou para o jovem para informar a situação. O jovem disse que não era culpa dele o ocorrido, e que não se responsabilizaria por localizar o tal envelope que havia sumido. Mal educado disse que parecia que jovem estava fazendo pouco caso da situação, e que não estava sendo solidário com o parceiro, mesmo após um trimestre de boas relações. Jovem reforçou que a culpa não era dele e que se mal educado continuasse com aquelas acusações ficaria extremamente ofendido e iria para casa dizer ao pai que a empresa não deu certo por causa dos maus parceiros que havia no mercado.Não, essa última parte ele só imaginou, não disse. Mal educado então disse que talvez fosse melhor conversar com o concorrente. E jovem disse para que ele fizesse o que julgasse correto, mas que parasse de gritar com ele, pois, como já havia dito, não tinha culpa. A isso, mal educado respondeu que não era uma questão de culpas, mas sim de uma relação comercial que corria o risco de não acontecer por uma falha que naquele momento não importava quem havia cometido. Jovem somente repetia que não gritasse tanto e que assim que o envelope chegasse assinaria o contrato e reconheceria as firmas conforme acordado pelos departamentos jurídicos das duas empresas. Mal educado disse a jovem que este era muito jovem, e que não entendia que o atraso implicaria naquele aumento de 9 % supracitado (que não é tão agradável para ser lido novamente).Jovem, outra vez, repetia que não era sua culpa, não estava assinando por que não havia chegado o documento, mas assim que chegasse assinaria. Mal educado desligou o telefone. Jovem sabia que era uma situação difícil, mas ponderava que não era sua culpa repetia sempre essa palavra, como um mantra), e, assim, não precisaria explicar muito a todos caso o negócio não evoluísse. Ele ficou contente por ter ganho a discussão, e se pegou sorrindo por isso. Mal educado foi ao responsável pelo envio de cartas da sua importante empresa, o despachante, e perguntou o que havia ocorrido. Pediu, também, o recibo dos correios, pois ingressaria com uma ação na justiça contra a empresa por considerar que havia sido prejudicado por alguém, e alguém, esse alguém, deveria ser punido. O despachante não encontrou o recibo. Todos os dias, durante todo o tempo que trabalhou na importante empresa de assessórios para automóveis, antes de checar seus emails, procurava o recibo. Chegava mais cedo que todos para não parecer que fazia o que estava fazendo. Durou 5 anos,quatro meses e 1 dia com a mesma rotina. Certo dia, teve um sonho, o qual contou para a esposa durante o café da manhã: Era um lugar escuro, fechado, estava sufocado emmeio a tantos papéis. Um cheiro forte que reconheceu ser de lona de caminhão impregnava o ambiente. Ele sacudia. Ouvia um assobio que vinha do lado de fora, e sabia que aquela música era um tango. Uma luz queria ter permissão para entrar, mas o escuro predominava, enxergava-se pouco. E o assovio continuava. E balançava. De repente um papel gigante foi se aproximando dele; Possuía uma espécie de boca e sussurrou em seu ouvido, mesmo ele percebendo que não tinha ouvido. A voz dizia "não suporto mais, tenho que me libertar. Eu simplesmente não quero ir para onde estou indo". E ele respondeu "e por que você vai então?". "Não, eu não vou". A luz finalmente conseguiu uma autorização e entrou. O papel, pôde ver, era um envelope,assim como ele, assim como todos que estavam deitados ao seu lado e não falavam nada, apesar de terem boca. Estavam inertes, entregues. Apenas o envelope que lhe sussurrou estava em pé. Conseguiu ver algo escrito: importante empresa de assessórios para automóveis. O envelope olhou mais uma vez para ele antes de sair e disse "eu simplesmente não quero ser entregue. Você pode fazer o mesmo, mas só se não quiser ser entregue. Se for para seguir meu exemplo, sem ter um objetivo que venha de dentro de você, fique aí como os outros". “Ele recebeu aquilo intimidativamente e simplesmente ficou ali.”. Quando acordou era o dia de 5 anos, quatro meses e 2 dias. A partir daquele dia chegava no mesmo horário que seus colegas. Agora compreendeu tudo e poderia dormir tranquilo."
quarta-feira, 24 de julho de 2019
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